A televisão impõe novas exigências. Diferente do rádio, ela não transmite apenas a música, mas o corpo do músico, sua postura, seus movimentos e sua relação com o instrumento. O guitarrista passa a comunicar visualmente: a maneira de segurar a guitarra, o tipo de instrumento, a interação com os outros membros da banda. Isso influencia diretamente o som. Partes mais simples, repetitivas e marcadas funcionam melhor quando precisam ser associadas a um gesto reconhecível.
Nesse contexto, a guitarra se consolida como símbolo da juventude moderna. Ela representa autonomia, energia e pertencimento a um grupo geracional. A música deixa de ser apenas algo que se escuta em casa e passa a ser um elemento de identidade pública. Bandas precisam ser reconhecíveis em poucos segundos, tanto sonora quanto visualmente. O riff, novamente, ganha importância porque pode ser associado a uma imagem, a um movimento, a uma atitude.
A mídia também acelera a padronização da linguagem musical. Aquilo que funciona bem na televisão tende a se repetir. Certos timbres, formatos de banda e tipos de canção passam a dominar o espaço cultural porque se adaptam melhor ao meio. A guitarra, nesse processo, se ajusta às demandas de clareza e impacto. Solos longos e complexos cedem espaço, muitas vezes, a partes mais diretas, que reforçam a identidade da música dentro de um formato midiático específico.
Ao mesmo tempo, a exposição massiva cria modelos a serem imitados. Jovens músicos aprendem observando apresentações televisivas, capas de discos e fotografias promocionais. A aprendizagem da guitarra se torna, em parte, uma aprendizagem visual. Isso contribui para a consolidação de estilos reconhecíveis e para a rápida disseminação de certas soluções técnicas e estéticas. A linguagem da guitarra se espalha porque é vista, não apenas ouvida.
Esse processo não deve ser entendido como empobrecimento artístico, mas como reorganização da música dentro de um novo sistema cultural. A guitarra dos anos 60 aprende a funcionar dentro de um ecossistema que envolve som, imagem, mercado e comportamento. A técnica se adapta à necessidade de comunicação imediata. O músico aprende a tocar pensando no conjunto da experiência, não apenas na execução isolada.
Para quem estuda guitarra, compreender essa relação entre mídia e linguagem musical é fundamental. Ela mostra que tocar bem não é apenas dominar o instrumento, mas entender como a música circula, como é percebida e como constrói significado social. A guitarra moderna nasce quando o músico aprende que som e imagem caminham juntos, e que a música precisa funcionar tanto no ouvido quanto no imaginário coletivo.
Este texto faz parte do Minicurso Guitarra no Rock dos Anos 1960, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — com foco em rock, blues e linguagem musical, para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.