No início da década, a música popular brasileira vive um momento de alta sofisticação estética. A Bossa Nova consolida uma ideia de modernidade ligada ao refinamento harmônico, à sutileza rítmica e ao controle do volume. O violão, instrumento central desse universo, representa intimidade, equilíbrio e diálogo com a canção. A guitarra elétrica, associada a volume, repetição e impacto físico, entra nesse cenário como elemento estranho. Não há espaço simbólico imediato para ela se tornar protagonista.

Além disso, a estrutura de circulação da música no Brasil é diferente. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o rock cresce a partir de clubes, cenas locais e circuitos juvenis relativamente autônomos. No Brasil, a música popular se organiza majoritariamente por meio do rádio e, cada vez mais, da televisão. Isso faz com que o rock chegue como produto mediado, muitas vezes traduzido, adaptado e suavizado. A guitarra entra, mas subordinada à lógica da canção e da imagem, não como motor da linguagem musical.

Esse contexto se evidencia na Jovem Guarda. O movimento cumpre um papel importante ao normalizar a presença da guitarra elétrica na música popular brasileira, mas faz isso dentro de limites bem definidos. A guitarra acompanha, colore e reforça a canção, mas raramente organiza a música a partir de riffs, texturas ou identidade sonora própria. O foco está na voz, na letra e na figura do intérprete. A linguagem guitarrística permanece funcional, não estrutural.

Outro fator decisivo é o debate cultural em torno da identidade nacional. Nos anos 60, especialmente a partir da politização crescente do campo cultural, a guitarra elétrica passa a ser vista por muitos como símbolo de influência estrangeira indesejada. Esse conflito não é apenas musical, mas ideológico. A defesa de uma música “brasileira” moderna se apoia no violão, na canção e em referências internas, enquanto a guitarra elétrica é frequentemente associada ao imperialismo cultural. Isso dificulta sua legitimação como linguagem central.

Do ponto de vista material, há também limitações concretas. Equipamentos são caros, difíceis de manter e pouco acessíveis. Amplificadores de qualidade, pedais e instrumentos elétricos circulam de forma restrita. Isso limita a experimentação sonora e a formação de cenas locais baseadas na guitarra. Mesmo músicos interessados encontram obstáculos técnicos que não existiam com a mesma intensidade nos países centrais da indústria cultural.

É apenas no final dos anos 60, com o Tropicalismo e com experiências mais radicais de estúdio e palco, que a guitarra começa a ser reconfigurada simbolicamente no Brasil. Ainda assim, esse processo aponta mais para a década seguinte do que para uma consolidação imediata. Nos anos 60, a guitarra brasileira está presente, mas ainda em disputa, buscando espaço entre a canção, a tradição e a modernidade.

Para quem estuda guitarra, esse contraste é altamente formativo. Ele mostra que a linguagem musical depende de contexto, circulação e legitimação cultural. A guitarra não se impõe apenas por suas qualidades sonoras, mas por um conjunto de condições sociais e históricas. Entender por que ela demorou a se tornar central no Brasil ajuda o músico a compreender que tocar guitarra é também lidar com tradição, mercado e identidade cultural — lições que seguem relevantes muito além dos anos 1960.


Este texto faz parte do Minicurso Guitarra no Rock dos Anos 1960, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — com foco em rock, blues e linguagem musical, para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.