O surf rock inaugura um protagonismo instrumental direto. A guitarra assume, sozinha, a responsabilidade de sustentar melodia, ritmo e clima. Sem a mediação da voz, ela precisa ser clara, repetível e imediatamente reconhecível. O timbre, especialmente o uso intenso de reverb, cria uma identidade espacial que substitui a narrativa verbal. Nesse caminho, a guitarra aprende a funcionar como voz principal, mas também como ambiente. O protagonismo nasce da consistência sonora, não da variação constante.
A Invasão Inglesa segue outro percurso. Aqui, a guitarra se torna protagonista não por dominar a música isoladamente, mas por organizar o coletivo. Bandas britânicas consolidam a ideia de duas guitarras com funções complementares: uma mais rítmica, outra mais melódica, ambas servindo à canção. O riff ganha centralidade como elemento de identidade e memória. O protagonismo da guitarra é compartilhado, distribuído e integrado ao formato da banda. Ela lidera sem monopolizar.
No blues rock, o protagonismo surge pela amplificação da expressão individual. A guitarra assume o papel de voz emocional, explorando bends, vibratos, sustain e dinâmica. Diferente do surf rock, aqui o foco não está na repetição hipnótica, mas na intensidade expressiva. Diferente da Invasão Inglesa, o centro não é apenas a canção, mas a personalidade sonora do guitarrista. Ainda assim, esse protagonismo continua ancorado em estruturas simples e repetitivas, que permitem a expansão expressiva sem perder o controle coletivo.
Apesar das diferenças, esses três caminhos compartilham um princípio comum: a guitarra se torna protagonista porque resolve problemas reais da música popular. Ela cria identidade rápida, sustenta a canção com poucos elementos e se adapta bem às exigências do palco, do estúdio e da mídia. Não há ruptura total entre esses estilos, mas variações de ênfase. O surf privilegia timbre e repetição; a Invasão Inglesa, organização coletiva e riff; o blues rock, expressão e amplificação.
Para o guitarrista, estudar esses três caminhos em conjunto amplia a compreensão da linguagem do instrumento. Eles mostram que não existe uma única forma de protagonismo. A guitarra pode liderar pelo som, pela estrutura ou pela expressão. Em todos os casos, o protagonismo não nasce do excesso, mas da clareza de função. Saber qual caminho escolher em cada contexto é parte essencial da maturidade musical.
Ao entender como esses três movimentos se articulam nos anos 60, o músico passa a enxergar a guitarra não como um fim em si mesma, mas como ferramenta flexível dentro de sistemas musicais distintos. Essa consciência histórica ajuda a fazer escolhas mais conscientes no presente, seja ao tocar em banda, ao compor ou ao estudar repertório. O protagonismo da guitarra, quando bem compreendido, deixa de ser disputa de espaço e se torna organização musical.
Este texto faz parte do Minicurso Guitarra no Rock dos Anos 1960, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — com foco em rock, blues e linguagem musical, para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.