Nos anos 60, a música popular passa a operar dentro de um novo sistema econômico e industrial. A indústria fonográfica se expande, o rádio se torna mais segmentado, a televisão passa a ter papel central e o público jovem se consolida como mercado. Essas condições criam uma pressão concreta: é preciso produzir músicas reconhecíveis rapidamente, tocáveis ao vivo, reproduzíveis em disco e visualmente impactantes. A guitarra elétrica se encaixa perfeitamente nesse sistema, não por acaso, mas por adequação material.

A própria forma das músicas é afetada por isso. Canções mais curtas, com introduções marcantes, refrões claros e riffs facilmente memorizáveis funcionam melhor no rádio e na TV. A guitarra assume a função de organizar o tempo da música, marcando pulsação, criando ganchos e sustentando a identidade da banda. Isso explica por que, nesse período, o riff passa a ser tão importante quanto a melodia cantada — às vezes mais importante.

Do ponto de vista material, a guitarra também ganha centralidade porque reduz custos e amplia possibilidades. Uma banda de quatro integrantes é mais barata, mais fácil de transportar e mais adaptável a diferentes espaços do que grandes formações. Amplificadores cada vez mais potentes permitem tocar para públicos maiores sem mudar a formação. A música se ajusta às exigências do mercado, e a linguagem musical se molda a essas condições.

Esse processo também redefine o papel do músico. O guitarrista dos anos 60 não é apenas um intérprete virtuoso, mas um trabalhador inserido em um sistema produtivo específico. Ele precisa tocar ao vivo com regularidade, gravar com eficiência, repetir performances, manter uma identidade sonora reconhecível. Isso favorece soluções técnicas e estéticas mais diretas: frases curtas, padrões repetíveis, timbres consistentes. A técnica deixa de ser apenas habilidade individual e passa a ser funcionalidade coletiva.

Outro ponto central é que a tecnologia não surge para “libertar” a criatividade de forma abstrata; ela impõe limites que orientam a criação. Amplificadores com determinadas respostas de frequência, gravações em poucos canais, limitações de tempo dos discos e dos programas de rádio moldam o som final. A guitarra dos anos 60 soa como soa porque só podia soar daquele jeito dentro das condições técnicas disponíveis. A estética nasce da limitação material, não da ausência de imaginação.

Esse olhar ajuda o estudante de guitarra a compreender por que copiar apenas a superfície — notas, escalas ou licks — nunca é suficiente. O que realmente importa é entender por que aquelas soluções funcionaram naquele contexto. Quando o músico entende a relação entre economia, tecnologia e linguagem musical, ele passa a enxergar a guitarra como ferramenta de comunicação e trabalho, não apenas como instrumento de execução.

Aplicar o materialismo histórico ao estudo do rock dos anos 60 é, portanto, uma forma de ganhar consciência musical. Não se trata de transformar música em teoria social, mas de perceber que tocar guitarra sempre envolve escolhas condicionadas pelo mundo real. Esse entendimento amplia a escuta, refina a interpretação e ajuda o músico a fazer escolhas mais conscientes no presente.

Este texto faz parte do Minicurso Guitarra no Rock dos Anos 1960, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — com foco em rock, blues e linguagem musical, para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.