No fim dos anos 1950 e início dos 60, discos americanos de blues, rhythm & blues e rock’n’roll chegavam ao Reino Unido como objetos quase clandestinos. Eram importados caros, passados de mão em mão, estudados obsessivamente. Essa escassez ajudou a formar músicos com escuta atenta e senso de linguagem. Antes de existir “estilo britânico”, havia aprendizado por imitação — tocar em cima de discos, decifrar grooves, copiar ataques e adaptar ao próprio contexto.
Os caminhos, porém, se bifurcam geograficamente e culturalmente. Liverpool, cidade portuária, tinha circulação intensa de discos e uma tradição de bandas tocando longas horas em clubes e bares; ali, a canção e a melodia ganham centralidade. Londres, por outro lado, concentrava clubes pequenos, uma cena urbana mais fragmentada e um culto quase purista ao blues e ao R&B; ali, o groove e a textura passam à frente da forma pop tradicional.
Esse ambiente também favoreceu uma mudança estrutural: bandas deixaram de ser apenas intérpretes e passaram a ser autoras. O público jovem não queria só músicas novas; queria postura, imagem, narrativa. A imprensa, a indústria fonográfica e os empresários entenderam rápido isso e começaram a organizar a explosão cultural em rótulos simples — úteis para vender, mas insuficientes para explicar a música. Foi nesse terreno que se construiu a ideia de “bandas rivais”, mesmo quando os músicos compartilhavam referências, palcos e até composições.
Do ponto de vista da guitarra, esse cenário explica muito. O instrumento deixa de ser ornamento e vira ferramenta identitária. Em um país que buscava romper com o passado imediato, a guitarra elétrica oferecia ataque, volume e presença física. Cada cena respondeu a isso de um jeito: ora enfatizando melodia e arranjo, ora priorizando ritmo e repetição. O resultado são linguagens diferentes, nascidas do mesmo caldo histórico.
Entender a Inglaterra dos anos 1960 é entender que Beatles e Stones não são opostos absolutos, mas respostas distintas a um mesmo momento. E é justamente essa diferença de resposta que faz dos Rolling Stones um objeto tão fértil para estudar guitarra: eles escolhem o caminho da base, do riff e do groove num mundo que começava a valorizar o espetáculo e a complexidade.
Este texto faz parte do Mini Curso Rolling Stones, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.