Os fatos confirmados começam pelos palcos. Em 1995, os Stones se apresentam pela primeira vez no Brasil, em São Paulo, durante a Voodoo Lounge Tour. Três anos depois, em 1998, fazem o histórico show gratuito em Copacabana, no Rio de Janeiro, para um público estimado em cerca de 1,5 milhão de pessoas. Esses eventos colocam definitivamente a banda no imaginário coletivo brasileiro e mostram a dimensão global que os Stones haviam alcançado.
Antes disso, porém, existe a história mais comentada — e frequentemente distorcida — envolvendo Keith Richards nos anos 1970. É verdade que Richards esteve no Brasil no início daquela década, num momento em que buscava distância da pressão policial e da exposição europeia. Há registros confiáveis indicando passagens pelo Nordeste, com menções recorrentes à Bahia, sempre em tom discreto e sem documentação oficial detalhada.
É aqui que começam as lendas. Não há prova sólida de que Keith Richards tenha “morado em um sítio” em São Paulo ou no interior paulista, nem de que tenha passado longos períodos compondo ou gravando material decisivo no país. Essas narrativas surgem por associação — Brasil como refúgio exótico — e acabam sendo repetidas sem verificação. O que se pode afirmar com segurança é que o Brasil funcionou como espaço de anonimato e pausa, não como laboratório musical.
Outro mito comum diz respeito às afinações de guitarra. Não há qualquer evidência de que Richards tenha desenvolvido afinações características, como a open G, a partir de experiências no Brasil. Essas soluções vêm do blues americano, especialmente do blues elétrico e das tradições de slide. O Brasil não entra como origem técnica dessa linguagem.
Isso não diminui a importância simbólica do país na narrativa dos Stones. O Brasil aparece como lugar de distanciamento do centro, onde a vida cotidiana seguia outro ritmo. Para um músico mergulhado em turnês, processos judiciais e exposição constante, esse deslocamento tem valor humano. Mas é importante dizer com clareza: a música dos Rolling Stones não muda por causa do Brasil. Ela já estava formada.
Para quem estuda guitarra, essa distinção é importante. Ajuda a evitar a romantização excessiva e recoloca o foco no que realmente constrói linguagem: escuta, tradição, repetição e função musical. O Brasil entra na história dos Stones como cenário, não como motor criativo — e isso, por si só, já é um dado interessante.
Entender essa relação com rigor histórico é também aprender a lidar com a história da música sem mitos fáceis. Nem tudo o que é interessante precisa ser transformado em explicação musical. Às vezes, o valor está simplesmente em reconhecer onde a música não nasce, para entender melhor onde ela de fato se forma.
Este texto faz parte do Mini Curso Rolling Stones, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.