Havia, sim, competição real. As bandas disputavam espaço em rádio, televisão, capas de revista e turnês. Compartilhavam o mesmo público jovem e apareciam na mesma temporada de lançamentos. Mas a ideia de ódio ou antagonismo pessoal é exagerada. Nos bastidores, havia convivência, respeito e trocas concretas. Um exemplo clássico é o início da carreira dos Stones, quando receberam de Lennon e McCartney uma composição que se tornaria um dos primeiros sucessos do grupo — algo impensável em uma rivalidade “de verdade”.

As diferenças sonoras, porém, são reais e ajudam a explicar por que a narrativa colou tão bem. Os Beatles avançam rapidamente para uma lógica de canção autoral, com atenção especial a melodia, arranjo e experimentação de estúdio. O estúdio vira instrumento. Já os Stones se afirmam como banda de groove, enraizada no blues e no rhythm & blues, onde a repetição, o riff e a pulsação são mais importantes do que a arquitetura formal da música. Um lado olha para dentro da canção; o outro, para o corpo da música.

Essa diferença também aparece na guitarra. Enquanto o universo dos Beatles abre espaço para múltiplas abordagens instrumentais e camadas harmônicas cada vez mais elaboradas, os Stones consolidam a guitarra como motor rítmico. Não é uma questão de simplicidade versus sofisticação, mas de função. A guitarra dos Stones não pede atenção individual; ela organiza o conjunto. É por isso que, pedagogicamente, estudar os Stones ensina algo que muitos guitarristas ignoram: como sustentar identidade sem ocupar todo o espaço.

Com o tempo, a própria rivalidade se dissolve. As bandas seguem trajetórias muito distintas, influenciam gerações diferentes e passam a ocupar lugares complementares na história da música. Os Beatles se tornam referência de inovação pop e estúdio; os Stones, de longevidade, linguagem de palco e fidelidade ao blues. Ambos são centrais para entender o século XX — cada um respondendo à mesma época com soluções musicais radicalmente diferentes.

No fim das contas, a rivalidade serviu mais ao marketing do que à música. O que ficou, e ainda importa para quem estuda guitarra hoje, é perceber que não existe um único caminho “correto”. Beatles e Stones mostram que a história da música se constrói por divergência de escolhas, não por hierarquia de valor. E é justamente essa divergência que torna os Rolling Stones um estudo tão potente de base, groove e linguagem.

Este texto faz parte do Mini Curso Rolling Stones, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.