É fato que Keith Richards viveu períodos graves de uso de drogas, especialmente no fim dos anos 1960 e ao longo dos anos 1970. Isso está amplamente documentado, inclusive por ele próprio. Também é fato que esses períodos trouxeram consequências reais: prisões, interrupções de trabalho, risco físico e instabilidade. O que raramente se diz com clareza é que a música não melhora por causa disso. O que se mantém nos discos e no palco não é o excesso, mas a linguagem construída antes, no blues, no groove e na escuta coletiva.

No outro extremo está Mick Jagger, que nunca teve a mesma relação com o abuso. Jagger sempre manteve disciplina física, controle de agenda e consciência de performance. Esse contraste interno é revelador. A longevidade da banda não se explica pelo mito do descontrole, mas pelo equilíbrio entre impulsos opostos: caos e organização, risco e método, instinto e estrutura.

Com o passar do tempo, o próprio Keith Richards deixa claro que a fase de abuso não é algo a ser romantizado. Ele sobrevive apesar dela, não por causa dela. A música dos Stones, inclusive a guitarra, permanece coerente porque sua base não está ligada a estados alterados, mas a escolhas muito concretas: riffs simples, repetição, ataque, função rítmica. Nada disso depende de drogas. Pelo contrário, exige presença e escuta.

Do ponto de vista pedagógico, esse tema só faz sentido se for tratado com honestidade. O blues, que está na raiz dos Rolling Stones, nasceu como expressão de dor, resistência e sobrevivência — não como glamour do excesso. Confundir isso é perder a essência. A intensidade emocional da música vem da experiência humana organizada em linguagem, não da autodestruição.

Para quem estuda guitarra, a lição é direta. Não existe atalho químico para groove, tempo ou identidade. A técnica de Keith Richards se constrói em repetição, convivência musical e consciência de função. O mito do excesso pode até render histórias, mas não ensina a tocar melhor. O que ensina é separar a narrativa midiática daquilo que realmente sustenta a música.

Olhar para esse tema com maturidade é parte do aprendizado. Entender o que é fato, o que é exagero e o que não tem relação alguma com a guitarra ajuda a recolocar o foco onde ele sempre esteve nos Rolling Stones: na música, não no personagem.

Este texto faz parte do Mini Curso Rolling Stones, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.