No início, Brian Jones ocupa um papel central. Mais do que guitarrista, ele atua como colorista sonoro. Sua relação com a guitarra não é de base rítmica constante, mas de textura: riffs pontuais, slides, timbres diferentes, além de outros instrumentos que ampliam o espectro da banda. Nessa fase, a guitarra dos Stones ainda não está totalmente organizada em funções fixas; há uma sensação de experimento permanente, herdeira direta do blues e do R&B de clube.
Com a saída de Jones e a entrada de Mick Taylor, a banda vive uma expansão clara. Taylor traz fluidez, técnica melódica e solos mais longos. A guitarra ganha linearidade, frases mais cantáveis e desenvolvimento harmônico mais evidente. É um período em que os Stones dialogam mais diretamente com a ideia de “guitarra solista”, sem abandonar o groove. Para quem estuda guitarra, essa fase mostra como a técnica pode coexistir com a base — mas também evidencia uma tensão: a banda começa a soar menos “crua”.
Essa tensão ajuda a explicar a próxima virada. A chegada de Ronnie Wood reorganiza a lógica interna das guitarras. Wood não entra como solista virtuoso, mas como parceiro rítmico. A partir daí, a banda assume de vez a ideia de duas guitarras dialogando, sem hierarquia rígida entre base e solo. Riffs se sobrepõem, frases se cruzam, espaços são compartilhados. A guitarra volta a funcionar como tecido, não como vitrine.
Em todas essas fases, Keith Richards é o ponto de estabilidade. Independentemente de quem esteja ao seu lado, sua abordagem — riff, groove, repetição, ataque — permanece. É ele quem ancora a identidade da banda. As mudanças de formação não deslocam esse centro; apenas revelam diferentes maneiras de orbitá-lo.
Para quem estuda guitarra, essa trajetória é extremamente pedagógica. Ela mostra que som não é apenas técnica individual, mas relação. O mesmo guitarrista toca de maneiras diferentes dependendo de quem está ao lado, do espaço disponível e da função que precisa cumprir. Nos Rolling Stones, a guitarra nunca existe sozinha. Ela se adapta, reage e se reorganiza conforme o coletivo.
Essa compreensão prepara o terreno para olhar mais de perto Keith Richards: não como guitarrista isolado, mas como alguém que constrói sua linguagem em diálogo constante. É a partir daí que faz sentido perguntar onde ele aprendeu a tocar e por que toca do jeito que toca.
Este texto faz parte do Mini Curso Rolling Stones, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.