Na Inglaterra do fim dos anos 1950, aprender blues significava caçar discos importados. Richards passa horas tentando decifrar como aqueles sons eram produzidos, especialmente os riffs e grooves do blues elétrico e do rhythm & blues americano. Não havia partitura, vídeo ou professor. O aprendizado vinha da tentativa de reproduzir o efeito musical, não a nota exata. Isso é fundamental para entender sua linguagem: ele não aprende “o que tocar”, mas como aquilo funciona dentro da música.
Outra parte decisiva desse aprendizado vem da observação direta. Quando os Rolling Stones começam a circular por clubes e, depois, chegam aos Estados Unidos, Richards passa a assistir guitarristas de blues ao vivo. O que ele absorve ali não é virtuosismo, mas função: como a guitarra sustenta a banda, como dialoga com a bateria, como repete ideias sem perder energia. Ele próprio já declarou que aprendeu mais vendo músicos segurarem o tempo do que tentando entender escalas.
Esse processo explica por que sua técnica parece, à primeira vista, “limitada”. Richards não desenvolve a mão para correr pelo braço; desenvolve o corpo para marcar pulso. Aprende a usar poucos shapes, poucas regiões do instrumento, mas com domínio absoluto de ataque, acentuação e repetição. A guitarra vira uma extensão rítmica do corpo, não um painel de possibilidades harmônicas.
Há também um aprendizado indireto, mas crucial: tocar em banda desde o começo. Richards nunca se forma como guitarrista solitário. Ele aprende tocando com outros músicos, reagindo ao que acontece ao redor. Isso molda uma postura em que a guitarra não busca preencher todos os espaços, mas ocupar o lugar certo. Essa consciência coletiva é parte central de sua “técnica”, mesmo que raramente seja chamada assim.
Para quem estuda guitarra hoje, esse caminho ensina algo valioso. Aprender a tocar não começa acumulando recursos, mas entendendo função. Richards mostra que uma formação baseada em escuta, repetição e convivência musical pode produzir uma linguagem sólida e reconhecível, mesmo sem aparato teórico formal. É um aprendizado que privilegia a música antes do instrumento — e talvez por isso soe tão duradouro.
Este texto faz parte do Mini Curso Rolling Stones, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.