As afinações fora do padrão entram no vocabulário de Keith como ferramenta funcional, herdada diretamente do blues. No blues rural e no blues elétrico, afinações abertas sempre existiram para facilitar acordes, riffs repetitivos e, principalmente, groove contínuo. Richards absorve isso não como conceito, mas como solução prática: menos notas disponíveis, menos decisões a tomar, mais foco em ataque e pulsação.
O mito começa quando essas escolhas são tratadas como segredo técnico. Não são. Richards não busca variedade infinita de afinações; ele se fixa em poucas opções que resolvem um problema musical específico. A mais famosa delas — open G, muitas vezes sem a sexta corda — não aparece para “soar diferente”, mas para organizar o riff. Ao retirar uma corda grave e limitar o campo harmônico, a guitarra passa a funcionar quase como um instrumento de percussão afinado.
É importante dizer isso com clareza: as afinações não fazem ninguém soar como Keith Richards. O que faz diferença é o que se toca com elas. Sem entendimento de ritmo, repetição e função, a afinação vira apenas um efeito superficial. Por isso, neste minicurso, todo o estudo será feito em afinação padrão. A intenção não é reproduzir o recurso técnico, mas traduzir a lógica musical por trás dele.
Quando se observa a guitarra dos Rolling Stones com atenção, fica claro que a afinação serve para reduzir escolhas e fortalecer identidade. Richards prefere trabalhar com poucos shapes, poucas regiões do braço e poucas variações harmônicas. Isso força a música a se sustentar pelo groove, não pela surpresa. É uma postura quase oposta à ideia moderna de guitarra como campo infinito de possibilidades.
Para quem estuda guitarra, a lição é direta. Afinação alternativa não é atalho, nem pré-requisito. Ela é um meio. O que realmente importa é compreender por que limitar o instrumento pode gerar mais consistência musical. Richards mostra que, ao abrir mão de opções, a guitarra ganha clareza, peso e função.
Desmistificar as afinações é libertador. Em vez de correr atrás de configurações específicas, o guitarrista passa a ouvir melhor o tempo, o ataque e o espaço entre as notas. É aí que a linguagem dos Rolling Stones se revela de verdade — não no detalhe técnico, mas na organização do som.
Este texto faz parte do Mini Curso Rolling Stones, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.