A base desse vocabulário é a pentatônica, tanto menor quanto maior. Mas ela raramente aparece “inteira”. Richards fragmenta a escala em pequenas células: dois ou três graus que se repetem, se deslocam ritmicamente e se reorganizam conforme a base. A escala não é um mapa; é um estoque de palavras. Ele escolhe poucas e insiste nelas até que ganhem peso e identidade.

A chamada escala blues também está presente, mas de forma implícita. A blue note surge mais como gesto expressivo do que como grau pensado. Não há a preocupação de “encaixar” a nota certa em cada acorde. O que importa é o efeito sonoro no conjunto. Muitas vezes, a nota está tecnicamente “fora”, mas musicalmente no lugar. Isso é herança direta do blues elétrico, onde a expressividade vale mais do que a precisão acadêmica.

Um ponto importante é o uso frequente da pentatônica maior, especialmente em bases com sabor country ou rock’n’roll primitivo. Richards alterna maior e menor com naturalidade, sem sinalizar a troca. Não há anúncio harmônico; há escuta. Esse trânsito cria uma ambiguidade que mantém a música viva, evitando que ela soe óbvia ou previsível.

O que quase não aparece é tão revelador quanto o que aparece. Richards não constrói frases longas baseadas em modos gregos, não desenvolve arpejos complexos e não explora extensões harmônicas como objetivo. Isso não é limitação técnica; é escolha estética. Quanto mais simples o material, mais clara fica a função rítmica da guitarra.

Para quem estuda guitarra, essa abordagem ensina algo fundamental: escalas não são fim, são meio. Decorar desenhos sem entender como usá-los dentro de um groove leva a uma execução genérica. Richards mostra que conhecer poucas notas profundamente, sabendo onde colocá-las no tempo, é muito mais poderoso do que dominar dezenas de padrões.

No contexto deste minicurso, a proposta não é “aprender as escalas de Keith Richards”, mas entender como ele escolhe notas. O foco está em ouvir a base, sentir o pulso e decidir o mínimo necessário para sustentar a música. É assim que o vocabulário ganha sentido — não no papel, mas no som.

Este texto faz parte do Mini Curso Rolling Stones, disponível aqui no site. Além do conteúdo do curso, eu dou aulas particulares de guitarra — online e presenciais — para alunos do Itaim Bibi, Moema, Vila Olímpia, Brooklin, Jardim Paulistano, Jardim Paulista, Jardim Europa, Cidade Jardim, Vila Nova Conceição, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.