Classificar não é revelar algo natural, mas criar critérios para organizar a complexidade do mundo. A partir do exemplo cotidiano de organizar um armário, mesmos elementos podem ser agrupados de várias formas igualmente válidas, dependendo da intenção de quem classifica.
Para construir essa explicação, partimos de exemplos simples do cotidiano, como a forma de organizar objetos e informações, avançamos para a biologia — onde a classificação das espécies ajuda a entender como critérios científicos são criados, usados e revisados — e, a partir dessa base, chegamos à música, aplicando o mesmo raciocínio para compreender como surgem e funcionam as classificações de gêneros, estilos e épocas musicais.
Categorização: organizar o mundo para conseguir pensar
Classificar, categorizar, organizar não são atos neutros nem naturais. São ferramentas humanas. A realidade não vem organizada; quem organiza somos nós. A categorização existe porque o cérebro humano precisa criar recortes, critérios e atalhos mentais para conseguir lidar com a complexidade do mundo. Sem isso, tudo seria apenas um fluxo contínuo e indistinto de informações. Quando falamos em classificação, é comum imaginar que estamos revelando algo que já estava “lá”, escondido na natureza. Mas, na prática, estamos fazendo o contrário: criando um sistema para dar sentido ao que vemos, de acordo com uma intenção específica.
Cotidiano
O exemplo do armário: vários critérios, nenhuma resposta correta
Um exemplo simples ajuda a deixar isso claro: organizar um guarda-roupa.
As mesmas roupas podem ser organizadas de inúmeras formas diferentes: por roupas de frio e roupas de calor; por cores; por roupas mais novas e mais velhas; por roupas formais e informais; por uso diário ou uso ocasional ...
Nenhuma dessas formas é mais “verdadeira” do que a outra. Todas são válidas, desde que façam sentido para quem está organizando. O critério muda conforme a necessidade, o contexto e o objetivo. O guarda-roupa não possui, por si só, uma organização natural. A organização é sempre uma decisão humana. Esse exemplo simples já mostra algo fundamental: classificar não é descobrir, é escolher.
Classificação não revela a natureza, revela o critério
Esse ponto é central: quando classificamos algo, estamos revelando muito mais sobre o critério que usamos do que sobre o objeto em si. A classificação não é uma verdade absoluta, é um modelo funcional. Esse mesmo raciocínio aparece em áreas muito mais complexas do conhecimento — como a biologia.
Biolologia
Como a biologia classifica a vida
Na biologia, a classificação dos seres vivos surge como uma tentativa de organizar a diversidade da vida para torná-la compreensível e estudável. O conceito de espécie nasce exatamente dessa necessidade. Desde os primeiros naturalistas, os cientistas tentam agrupar organismos a partir de semelhanças observáveis, criando categorias que facilitem a descrição, a comparação e o estudo. Mas, assim como no armário, os critérios mudam. Ao longo da história, espécies foram definidas com base em: aparência física (forma, tamanho, cor); comportamento; ambiente em que vivem; capacidade de reprodução entre si e, mais recentemente, genética. Cada um desses critérios gera recortes diferentes da realidade.
Especialização, adaptação e a ideia de espécie
A noção de espécie está profundamente ligada à ideia de especialização e adaptação ao ambiente.
Essa lógica se fortalece no século XIX com os estudos de Charles Darwin, que observou como organismos semelhantes desenvolvem características diferentes ao longo do tempo conforme o ambiente em que vivem. Um mesmo tipo de animal, ao ocupar regiões diferentes, passa a se especializar em sobreviver naquele contexto específico. Alimentação, clima, predadores e território influenciam diretamente essas transformações. O exemplo clássico são os animais observados por Darwin nas Ilhas Galápagos: populações muito próximas entre si apresentavam diferenças físicas claras, resultado direto do ambiente em que viviam. A partir disso, surge a pergunta: são espécies diferentes ou variações da mesma espécie? A resposta depende do critério adotado.
Um mesmo animal, classificações diferentes
Mesmo hoje, não existe um único conceito universal de espécie. Dependendo do método utilizado, o mesmo animal pode ser classificado de formas diferentes. Um exemplo próximo do cotidiano são os cães. Todos pertencem à mesma espécie (Canis lupus familiaris), apesar das diferenças extremas de tamanho, forma e comportamento entre raças. Se o critério fosse apenas morfológico, muitas raças poderiam facilmente ser consideradas espécies distintas. O oposto também acontece. Animais muito parecidos visualmente podem ser classificados como espécies diferentes se não conseguem se reproduzir entre si ou se apresentam diferenças genéticas significativas. Isso mostra que a classificação não é uma leitura direta da natureza, mas uma construção teórica, feita por especialistas, com objetivos específicos.
Não existe classificação definitiva
Na biologia contemporânea, existe um consenso importante: não há uma definição única e definitiva de espécie. Existem vários conceitos coexistindo, cada um útil para um tipo de estudo. A classificação não é uma verdade natural, mas um instrumento humano para organizar o mundo. E exatamente por isso, ela muda conforme o contexto, o interesse e a finalidade de quem classifica.
Música
Como esse mesmo raciocínio se aplica à música: gêneros, estilos e épocas. Quando trazemos essa discussão para a música, o mecanismo é exatamente o mesmo. A música não nasce dividida em gêneros, estilos ou épocas. Sons, práticas musicais e tradições surgem em contextos sociais específicos, ligados a pessoas, territórios, tecnologias e funções culturais. A classificação aparece depois, como uma tentativa humana de organizar algo que, na prática, é contínuo, híbrido e mutável.
Assim como no armário ou na biologia, não existe uma única forma “natural” de classificar música. O que existe são diferentes critérios possíveis, que mudam conforme o objetivo: estudo histórico, mercado fonográfico, programação de rádio, curadoria de catálogo, ensino musical ou simples conversa cotidiana.
Gênero musical: um recorte funcional, não uma essência
Um gênero musical é, antes de tudo, um acordo coletivo. Ele surge quando um conjunto de práticas sonoras passa a ser reconhecido, nomeado e repetido sob um mesmo rótulo. Blues, jazz, rock, country, soul ou funk não são entidades naturais: são categorias criadas para agrupar músicas que compartilham certos traços, mesmo que esses traços nunca sejam idênticos entre si.
O blues, por exemplo, agrupa músicas que podem soar muito diferentes quando comparamos Robert Johnson, Muddy Waters e B.B. King. O que faz todas essas músicas caberem sob o mesmo nome não é uma fórmula fixa, mas um conjunto de referências históricas, harmônicas, expressivas e culturais que escolhemos considerar relevantes. Se o critério fosse apenas instrumental, parte do blues acústico poderia ser classificada junto ao folk. Se fosse apenas harmônico, poderia se misturar ao jazz inicial. A escolha do nome “blues” revela o critério adotado, não uma fronteira objetiva no som.
Estilo: variações internas dentro do mesmo gênero
Dentro de um gênero, surgem os estilos, que funcionam como subdivisões ainda mais específicas. Aqui, o critério costuma ser geográfico, temporal, estético ou tecnológico.
No próprio blues, falamos em Delta blues, Chicago blues ou Texas blues. Essas classificações ajudam a entender contextos distintos — acústico versus elétrico, rural versus urbano — mas não significam que um músico “abandona” um gênero para entrar em outro. Howlin’ Wolf toca blues, mas um blues moldado pela cidade, pela eletrificação e pelo mercado do pós-guerra. O mesmo acontece no rock. Quando falamos em rock and roll, hard rock, punk ou grunge, estamos usando critérios diferentes para organizar sons que compartilham uma genealogia comum. Chuck Berry, The Ramones e Nirvana pertencem todos ao “universo do rock”, mas dificilmente soariam iguais se colocados lado a lado.
Épocas musicais: o tempo como critério de organização
Outro critério muito usado é o tempo histórico. Quando falamos em “música dos anos 1950”, “rock dos anos 1960” ou “pop dos anos 1980”, estamos organizando a música por épocas, não por linguagem pura.
Esse tipo de classificação ajuda a entender mudanças tecnológicas, sociais e industriais. O rock dos anos 1950 está ligado ao rádio AM, aos singles e ao surgimento da cultura jovem. Já o rock dos anos 1960 envolve estúdios mais sofisticados, álbuns conceituais e circulação internacional, especialmente com a entrada da Inglaterra no centro da indústria, com bandas como The Beatles e The Rolling Stones. Nada disso impede que músicas feitas na mesma época soem completamente diferentes. A classificação por décadas é uma ferramenta didática e histórica, não um reflexo fiel da diversidade real da produção musical.
Mistura de critérios: quando a confusão aparece
Grande parte da confusão em torno de gêneros musicais surge porque misturamos critérios diferentes sem perceber. Às vezes falamos de gênero (rock), às vezes de estilo (punk), às vezes de época (anos 1970) e às vezes de mercado (pop). Isso cria a sensação de que os gêneros são confusos ou contraditórios — quando, na verdade, os critérios é que estão mudando. O pop, por exemplo, não define uma linguagem sonora específica. Ele define uma função dentro da indústria: música pensada para ampla circulação, rádio, charts e consumo massivo. Michael Jackson, Madonna e Prince soam muito diferentes entre si, mas compartilham um mesmo lugar dentro do mercado cultural.
Classificar música é organizar escuta, não limitar criação
Assim como na biologia, não existe uma classificação definitiva para a música. Os gêneros não são caixas fechadas onde as obras “pertencem”, mas mapas provisórios que nos ajudam a navegar por um território complexo. Um mesmo disco pode ser classificado de formas diferentes conforme o critério adotado: histórico, estilístico, mercadológico ou pedagógico. Entender isso muda completamente a forma como ouvimos e estudamos música. Em vez de perguntar “isso é ou não é tal gênero?”, a pergunta passa a ser: por que estamos classificando dessa forma e para quê? A resposta quase nunca está apenas no som — ela está no contexto, no recorte e na intenção de quem classifica. Esse entendimento prepara o terreno para compreender como os gêneros musicais surgem, se transformam, se misturam e, muitas vezes, entram em crise quando os critérios que os sustentavam deixam de fazer sentido.