O que vem a seguir é uma linha cronológica por décadas que tenta explicar como certos gêneros foram “ganhando nome”, identidade e vida comercial ao longo do século XX — com foco no eixo que mais exportou rótulos para o mundo: Estados Unidos (primeiro) e, a partir dos anos 1960, Inglaterra como segunda potência decisiva nesse mercado global.

Importante: isso não esgota o assunto e nem pretende listar “todos os gêneros possíveis”. É um recorte de gêneros muito comuns (no sentido de serem muito citados, gravados, vendidos, exportados e reclassificados pela indústria). O critério aqui é: (1) aparecer como “nome de gênero” de forma relativamente estável, (2) ter impacto histórico na genealogia do rock/pop e seus desdobramentos, e (3) ser útil para entender o encadeamento blues/jazz/country → rock → pop/UK → alternativo/grunge


1900s (1900–1909)

Fundamentos antes do “mercado de gêneros” ficar maduro

 

Blues (formação moderna / matriz expressiva)

O blues se consolida no início do século XX como música secular afro-americana do Sul dos EUA. Ele não nasce como “prateleira de loja”, mas como linguagem cultural, que depois vira rótulo útil para catálogo, gravação e consumo. Características: foco vocal e expressivo, formas simples e repetitivas, “blue notes” e uma gramática que vai influenciar jazz, R&B, rock e até o country (direta ou indiretamente). 
Artistas (referenciais históricos): Charley Patton, Ma Rainey, Blind Lemon Jefferson.

Ragtime (ponte rítmica para o jazz)

Ragtime é um estilo popular de virada do século (piano, síncopes), um dos precursores diretos do jazz. Não é “blues”, mas ajuda a construir o terreno rítmico e a noção de música popular urbana que vai explodir depois. 
Artistas: Scott Joplin, James Scott, Joseph Lamb.


1910s (1910–1919)

Jazz ganha forma como linguagem urbana

 

Jazz (origem: mistura e improviso)

A Britannica descreve o jazz como resultado de uma combinação de elementos africanos e europeus desenvolvida por afro-americanos nos EUA, com influência de ragtime e blues e com marca forte de improvisação, timbres e ritmos sincopados.
Artistas: Louis Armstrong, Jelly Roll Morton, Kid Ory.

Blues “nomeado” e organizado (o blues vira categoria)

Ainda que o blues seja prática anterior, o começo do século XX é um período em que o termo vai se estabilizando como nome reconhecível, facilitando publicação, circulação e mercado. Isso prepara o cenário dos anos 1920, quando gravação e rádio passam a “fixar” nomes e estilos. 
Artistas: W. C. Handy, Ma Rainey, Bessie Smith.


1920s (1920–1929)

Gravação e rádio aceleram os rótulos

 

Jazz (Era do Jazz / dança e bandas)

Nos anos 1920, jazz vira símbolo cultural e se expande como música de dança e entretenimento urbano. A indústria já consegue vender o “som” como identidade de época — e isso importa porque é justamente esse mecanismo que, depois, vai rotular tudo com mais agressividade. 
Artistas: Duke Ellington, Louis Armstrong, Fletcher Henderson.

Country (origem rural + virada comercial)

O country surge como música popular americana originada em áreas rurais do Sul e Oeste e, nos anos 1920, ganha impulso com rádio e gravações. A Britannica cita explicitamente a importância de Carter Family e Jimmie Rodgers nesse começo, mostrando que já existe um “núcleo fundador” que vira referência. 
O que caracteriza: narrativa direta, violão/fiddle, temáticas cotidianas, identidade regional.
Artistas: The Carter Family, Jimmie Rodgers, Fiddlin’ John Carson.

Blues gravado (consolidação do blues como produto)

Com a expansão fonográfica, o blues também ganha formas “vendáveis”, artistas de estúdio e circuitos. A partir daí, o blues começa a ter variações comerciais (mais banda, mais “show”), que serão decisivas no pós-guerra. 
Artistas: Bessie Smith, Blind Lemon Jefferson, Tampa Red.


1930s (1930–1939)

Swing e “música de massa” antes do rock

 

Swing (jazz para dançar / big band)

O swing se torna a grande linguagem de dança e rádio em boa parte dos EUA. É importante aqui porque estabelece um modelo industrial: arranjos, seções, mercado nacional, e um “som dominante” que convive com cenas paralelas. 
Artistas: Count Basie, Benny Goodman, Glenn Miller.

Country se diversifica (caminho para western swing e honky-tonk)

Mesmo antes de virar “Nashville Sound”, o country vai se especializando regionalmente. Uma parte vai ficar mais dançante e instrumental (futuro western swing), outra vai caminhar para letras mais duras e ambientes de bar (futuro honky-tonk). Essa “divisão” é um embrião do que vai explodir nos 1940s.
Artistas (ponte para a década seguinte): Bob Wills (western swing), Ernest Tubb (honky-tonk), Gene Autry (canto “cowboy” como produto).


1940s (1940–1949)

Pós-guerra: R&B e country “de bar” viram motores

 

Rhythm and Blues (R&B) (categoria industrial + ponte para rock)

R&B passa a funcionar como categoria forte no pós-guerra. A Britannica descreve o R&B como estilos relacionados desenvolvidos por artistas afro-americanos, com várias formas, frequentemente em torno de estruturas do blues, e como antecedente do rock. 
Artistas: Louis Jordan, Wynonie Harris, Big Joe Turner.

Chicago blues / urban blues (eletrificação e peso)

O blues urbano do pós-guerra, especialmente o estilo de Chicago, vira um passo decisivo rumo ao rock: amplificação, bandas, riffs e impacto físico. A Britannica aponta Howlin’ Wolf como expoente do urban blues de Chicago — e isso marca o “blues que já conversa com o rock”. 
Artistas: Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Little Walter.

Honky-tonk (country “amargo”, urbano-rural, bar e estrada)

A Britannica define honky-tonk como estilo country que emerge nos 1940s com nomes como Ernest Tubb e Hank Williams, com combinação fiddle/steel guitar e letras “bitter/maudlin” (dor, deslocamento, vida dura). 
Artistas: Hank Williams, Ernest Tubb, Lefty Frizzell.

Bluegrass (virtuosismo acústico e identidade de cordas)

Bluegrass nasce como forma distintiva de string-band music com Bill Monroe (meados dos 1940s), com técnica instrumental forte e um “som” acústico muito reconhecível. 
Artistas: Bill Monroe, Flatt & Scruggs, The Stanley Brothers.


1950s (1950–1959)

Rock and roll aparece como rótulo global

 

Rock and roll (mistura R&B + country + juventude)

Rock surge nos EUA nos 1950s como música de batida forte e identidade jovem; a Britannica reconhece o rock como forma de música popular emergente nos 1950s, que depois se espalha e domina globalmente. 
O que caracteriza: backbeat, riffs, canção curta, energia, cultura juvenil.
Artistas: Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley.

Rockabilly (country tocando rock: “hillbilly rock”)

A Britannica define rockabilly como forma inicial de rock criada por performers brancos do Sul, popular de meados dos 1950s a 1960, e registra a própria leitura do termo: rock’n’roll tocado por “hillbillies”. 
Artistas: Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Elvis Presley (fase Sun).

Country vira grande negócio (pré-Nashville Sound e a indústria se fecha)

Nos 1950s, o country deixa de ser só “regional” e vira empresa nacional. A Britannica descreve a dominância das grandes companhias e a transformação do country em enorme empreendimento comercial nos 1950s/60s. 
Aqui começa a tensão clássica: padronização vs autenticidade, que vai explodir depois no outlaw.


1960s (1960–1969)

EUA e Inglaterra codificam o rock/pop moderno

 

British Invasion (Inglaterra entra como potência exportadora)

A Britannica define a British Invasion como movimento musical de meados dos 1960s formado por grupos britânicos cuja popularidade se espalhou rapidamente para os EUA (marco: Beatles em 1964). 
Por que isso importa: Inglaterra passa a ser não só “consumidora” do blues/rock americano, mas produtora de novos padrões globais.
Artistas: The Beatles, The Rolling Stones, The Animals.

Soul (R&B + gospel com nome próprio e mercado)

A Britannica descreve soul como termo adotado para música popular afro-americana evoluindo do R&B dos 1950s para 60s/70s, com raízes fortes em gospel e R&B.
Características: voz intensa, “chamada e resposta”, emoção, metais, groove.
Artistas: Aretha Franklin, Otis Redding, Sam Cooke.

Funk (o ritmo vira protagonista)

A Britannica aponta a ideia do “funk beat” associado à banda de James Brown no fim dos 1960s, com ênfase agressiva e sincopada, “on the one”. 
Características: bateria/baixo na frente, síncope, repetição hipnótica.
Artistas: James Brown, Sly & The Family Stone, The Meters.

Country nos 60s: Nashville Sound (padronização e “polimento”)

A Britannica diz que, nos 1950s/60s, o country virou grande empresa e que o produtor Chet Atkins desenvolveu o Nashville Sound, com fundos orquestrais e produção “lisa”, que dominou a estética comercial. 
Artistas (representativos do período e do mercado Nashville): Patsy Cline, Jim Reeves, Marty Robbins. 


1970s (1970–1979)

Especialização: rock se fragmenta, dança explode, country reage

 

Heavy metal (peso, distorção, riffs e “poder”)

A Britannica descreve heavy metal como gênero intenso, poderoso, centrado na guitarra distorcida; e o resumo da Britannica aponta evolução no fim dos 1960s a partir de música pesada, blues-orientada, definindo-se nos 1970s com bandas específicas. 
Artistas: Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple (e, como consolidação 70s, AC/DC).

Glam rock (o rock como espetáculo)

A Britannica define glam rock como movimento britânico do início dos 1970s que celebra o espetáculo do rock star e do show, com teatralidade e persona. 
Artistas: David Bowie, T. Rex, Roxy Music.

Punk (reação: energia, choque, DIY)

A Britannica define punk como forma agressiva de rock que se consolida como movimento anglo-americano entre 1975–80, ligado a ideologia/estética de rebeldia. 
Artistas: Ramones, Sex Pistols, The Clash.

Disco (pista, DJ, continuidade e estúdio)

A Britannica define disco como estilo “beat-driven” e forma central de música de dança, com origem associada às discotheques; e o resumo menciona surgimento em clubes underground de NYC com DJs e mix contínuo.
Artistas: Donna Summer, Bee Gees, Chic.

Hip-hop (fim dos 70s: nasce como cultura + música)

A Britannica descreve o nascimento do hip-hop ligado a DJing, rapping e ambiente urbano; e identifica DJ Kool Herc como figura fundadora, com inovação de usar dois toca-discos e “breaks” em festas. 
Artistas/figuras: DJ Kool Herc, Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa.

Country 70s: outlaw (reação ao Nashville Sound)

A Britannica define outlaw music como movimento do country nos 1970s liderado por Willie Nelson e Waylon Jennings, tentativa de escapar das restrições formulaicas do Nashville Sound. 
Características: mais autonomia artística, letras mais “estrada”, produção menos polida, aproximações com rock/folk/honky-tonk.
Artistas: Willie Nelson, Waylon Jennings, Kris Kristofferson.


1980s (1980–1989)

Globalização pop, MTV e cenas “contra”

 

New wave (pós-punk “vendável” e amplo)

A Britannica define new wave como categoria da música popular do fim dos 1970s e começo dos 1980s, uma classificação “guarda-chuva”, definida em oposição tanto ao punk quanto ao rock corporativo. 
Artistas: Talking Heads, Blondie, Devo.

Synth-pop (tecnologia como assinatura pop)

Aqui o ponto é menos “nascimento” e mais consolidação comercial: teclados, drum machines e estética futurista se tornam linguagem central do pop (muito forte no UK). (Como “família” dentro do new wave e do pop dos 80s.) 
Artistas: Depeche Mode, Pet Shop Boys, New Order.

Hip-hop/rap vira mainstream (80s)

O hip-hop, nascido no fim dos 70s, entra nos 80s como indústria: gravações, rádio, TV, estrelas, subcenas e discurso social. A base cultural já está estabelecida no relato da Britannica (DJing, rapping, breaks) e se expande comercialmente. 
Artistas: Run-D.M.C., LL Cool J, Public Enemy.

Metal se ramifica (thrash / glam metal)

O metal, já consolidado, se divide em vertentes: uma acelera e endurece (thrash), outra vira super comercial e visual (glam). A Britannica reconhece o metal como família de estilos relacionados (do thrash a formas extremas) e como gênero altamente bem-sucedido comercialmente. 


Artistas (thrash): Metallica, Slayer, Megadeth.
Artistas (glam metal): Mötley Crüe, Bon Jovi, Poison.

Alternative/college rock (pré-grunge)

Nos 80s cresce uma cena alternativa (rádio universitária, selos independentes, estética anti-“corporate rock”), que vira ponte direta para o grunge no começo dos 90s. (Essa é a “trilha” que explica a virada de 1991.) 
Artistas: R.E.M., Pixies, Sonic Youth.

Country 80s: continuidade do mercado + herança outlaw

O country segue gigante como mercado (Nashville e derivados) e, ao mesmo tempo, carrega a herança do outlaw como “modelo de resistência” dentro do próprio gênero (autoria, liberdade, estética menos polida). A tensão padronização vs autonomia continua sendo motor interno do country. 
Artistas (80s, diferentes faces do country de massa e da herança outlaw): George Strait, Reba McEntire, Hank Williams Jr.


Começo dos 1990s (1990–1992)

O grunge como virada simbólica

 

Grunge (Seattle: ponte entre metal 80s e alternativo pós-punk)

A Britannica define grunge como gênero de rock que floresce no fim dos 1980s e começo dos 1990s, associado às “murky-guitar bands” de Seattle; e descreve o grunge como ponte entre o hard/heavy mainstream dos 80s e o alternative pós-punk. 
Artistas: Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden.


Fecho lógico desta página

Se você olhar essa linha inteira como “sistema”, o padrão fica claro: gêneros surgem, se estabilizam e se vendem como nomes, e depois se ramificam (subgêneros) conforme mudanças de tecnologia, mercado e comportamento. Essa cronologia não diz “o que a música é”; ela mostra como a indústria e a cultura foram criando rótulos úteis para reconhecer, agrupar e vender sons que, na vida real, sempre se misturaram. 


Fonte: Encyclopedia Britannica