No dia 1º de dezembro de 2005, participamos do encerramento das sessões de atendimento de adolescentes de uma ONG. Nessa turma, cerca de dez adolescentes recebiam acompanhamento psicológico ao longo do ano. No último encontro, foi organizada uma festa, e fomos convidados para levar música a eles como uma atividade especial.
Já sabíamos, pelas conversas com a equipe, que apesar dos problemas sociais enfrentados, tratava-se de um grupo bastante agitado. Os adolescentes faziam muita bagunça e, durante os atendimentos em grupo, os psicólogos relatavam dificuldades constantes para conduzir as sessões por causa desse comportamento.
Cientes desse cenário, ao chegarmos optamos por não pedir silêncio ou impor que todos ficassem sentados. Preferimos observar primeiro: como brincavam, quem era quem dentro do grupo, de que forma se relacionavam. Em vez de tentar controlar, escolhemos entrar na brincadeira, interagir, permitindo que corressem, se soltassem, aproveitassem a liberdade daquele momento.
Quando percebi que eles já estavam confiando em nós, peguei o violão e comecei a puxar uma conversa sobre sentimentos. Usei o próprio bolso da camisa como pretexto, buscando um gancho para conectar com algo do universo deles: expliquei sobre a origem do funk carioca, um estilo musical que eles gostam, e também sobre o rap. Falei que o funk seria filho do rap e o rap, neto do blues. Aproveitei para introduzir a história do blues de maneira leve e divertida, sem perder o ritmo da conversa.
Aos poucos, a brincadeira foi dando lugar a um clima mais introspectivo. Eles começaram a prestar atenção, a se conectar com o que eu falava sobre a origem do blues entre os povos escravizados da África, e o quanto a música carrega sentimentos e histórias. Fui trazendo esse contexto histórico para que eles pudessem se enxergar naquela narrativa, principalmente porque muitos eram negros ou pardos, e percebi que já traziam alguma consciência racial. Deixei o espaço aberto para perguntas, como se todos estivéssemos participando juntos daquela história.
Expliquei a eles que esses povos, arrancados de suas famílias e terras, precisaram encontrar maneiras de lidar com o sofrimento, com a saudade e a dureza da vida forçada. Tentei levar o grupo a imaginar e, mais que isso, sentir um pouco dessa conexão, usando exemplos atuais para aproximar a experiência. Contei que, durante o trabalho pesado nas lavouras, esses homens e mulheres improvisavam pequenas canções enquanto trabalhavam — músicas criadas na hora, em forma de canto, que falavam das dores do corpo, da saudade da terra natal, do sonho de liberdade, mas também de coisas engraçadas, situações divertidas e animadas, súplicas de louvor, de esperança em Deus como salvação. O importante não era se o nome era blues ou qualquer outro, mas sim a música como expressão dos sentimentos.
Expliquei também que o termo "blues", na tradução literal, significa tristeza, mas na música tem um significado maior: está ligado a sentir, e sentir abrange alegria, tristeza, raiva, até o riso. O importante é colocar para fora, dar voz ao que se sente.
Aos poucos, senti que o grupo foi entrando nesse clima mais reflexivo, participando e se permitindo um momento quase meditativo — o que, para adolescentes tão agitados, foi uma conquista por si só. Aproveitei para explicar que iríamos experimentar um blues juntos, da mesma forma que era feito na origem: como um canto de pergunta e resposta. Quem conduzia o canto, no caso eu, fazia uma pergunta através de uma frase cantada; quem estava em volta respondia. Formamos uma roda, peguei o violão e comecei repetindo uma frase simples: “Eu tenho um blues…” Cada adolescente, ao ser chamado, completava: “e o que mais eu tenho?” — e então escolhia uma palavra, qualquer coisa importante naquele momento: um familiar, um objeto, algo querido.
Seguimos assim, passando de um para outro, e ao final de cada ciclo vinha o refrão, cantado por todos: “Pois aquilo que arde é o que também me cura.” Aproveitei para reforçar que, ao falar sobre os sentimentos, muitas vezes a gente sente até uma tristeza maior no momento, mas é assim que começa o processo de cura — a fala é um caminho para o bem-estar.
No final, cada um compartilhou algo que valorizava, criando um mosaico de sentimentos e memórias importantes para cada um ali. Esse resultado, além de significativo para o grupo, gerou informações valiosas para os psicólogos, que poderão usar esse material no trabalho ao longo do próximo ano.
Muitos dos aspectos que cada um valorizava, que apareceram durante a dinâmica, eram difíceis de perceber nas sessões regulares, já que, por serem tão agitados, os psicólogos encontravam dificuldades para se aprofundar nas demandas individuais de cada adolescente. Mas, naquele momento, o clima tornou-se mais reflexivo e aberto. Eles se sentiram seguros para expor, diante dos colegas, o que era importante para cada um. Isso abriu portas para um novo tipo de interação entre eles.
Após a dinâmica, houve um momento marcante: um dos adolescentes pegou o violão e, ainda que soubesse apenas tocar um “ré mi”, envolveu todos, convidando-os a participar. O ambiente musical, aliado ao contexto dado àquela atividade, preparou o grupo para um contato mais verdadeiro com seus sentimentos.
Depois, em um clima mais leve, os psicólogos deixaram que as brincadeiras acontecessem de forma espontânea. E, de repente, o grupo começou a jogar capoeira. O mais curioso é que quase todos sabiam jogar, mas cada um havia aprendido em lugares diferentes — nunca tinham praticado juntos. A roda foi se abrindo, eles foram se alternando, e a capoeira tomou conta do espaço. Foi um exemplo importante para todos: capoeira ali não era violência, era proteção, arte, dança, cultura.
A festa continuou, e pudemos perceber a diferença no grupo. Quando chegamos, havia divisões, pequenos conflitos, grupos separados. Ao final, vimos todos juntos, unidos, brincando em harmonia. Fizeram uma roda de improviso com uma batida de funk carioca, criaram rimas, provocaram uns aos outros no melhor espírito do improviso, e até eu entrei na roda para improvisar com eles. A música, naquele dia, foi o fio condutor para que cada um se expressasse, se aproximasse dos outros e experimentasse o prazer de criar junto.
Quem participou dessa vivência fui eu, Tom Veras, responsável pelo violão, pelo canto, pela condução da dinâmica musical e pela contextualização da história do blues. Também esteve presente Fernanda Veras, psicóloga do grupo, que acompanhou todo o processo, puxou o canto junto comigo e participou ativamente. Por já fazer parte do atendimento cotidiano desses adolescentes, Fernanda optou por me deixar em destaque naquele momento, aproveitando o fato de eu ser uma presença nova para eles, enquanto ela se mantinha próxima, apoiando e observando cada etapa da atividade.